O
Legado de Jung
O grande psiquiatra foi também defensor
da Ufologia e profundo estudioso da presença alienígena
na Terra
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João Oliveira
Pouca gente sabe, mas um dos maiores psiquiatras da história,
Carl Gustav Jung, interessou-se – e muito – pela questão
ufológica. Tanto que publicou, em 1958, um livro que causaria
imensa polêmica na época: Um Mito Moderno sobre
Coisas Vistas no Céu [Editora Vozes, 1958]. Jung sabia
que estaria se expondo ao manifestar-se sobre um tema ainda considerado
tabu nos anos 50, mas ainda assim o fez. “Estou ciente
do risco que corro ao empreender a tarefa de expressar minha opinião
sobre certos acontecimentos contemporâneos. Trato aqui daquele
boato sobre corpos redondos que percorrem nossa troposfera e estratosfera,
chamados flying saucers, pratos, soucoupes volants, discos voadores,
UFOs e OVNIs”, escreveu.
O psiquiatra mexeu num vespeiro justamente quando raros membros
da comunidade científica mundial se esquivavam de comentar
o assunto. Mas tal pioneirismo é parte da história
de Jung, que se consagrou por ter idéias revolucionárias
e impactantes, sem temer reações opostas a elas. Com
a Ufologia, que ele acompanhava atento, não haveria de ser
diferente. Os UFOs já eram notícia corriqueira em
jornais de todo o mundo em sua época. Vários livros
e publicações circulavam com teorias variadas sobre
sua natureza e funcionamento, e a curiosidade do público
já era grande sobre o tema. O psiquiatra se manifestou de
maneira clara quanto ao assunto e ainda no prefácio de sua
obra escreveu: “Como psicólogo, não disponho
de recursos que contribuam para a solução do problema
sobre a realidade física dos UFOs. Por isso, incumbo-me somente
de seus aspectos psíquicos, que sem dúvida existem,
dedicando-me a seguir quase que exclusivamente os fenômenos
psíquicos concomitantes”.
Imensa contribuição
Jung nasceu em 26 de julho de 1875, no vilarejo de Kesswil, Suíça.
Era o filho mais velho e o único a sobreviver de um pastor
protestante. Ele tinha mais oito tios também pastores, fazendo
com que seu contato com a religião influenciasse profundamente
seu trabalho. Jung foi um dos maiores psiquiatras do mundo. Os UFOs
já eram notícia corriqueira em jornais de todo o mundo
em sua época. Vários livros e publicações
circulavam com teorias variadas sobre sua natureza e funcionamento,
e a curiosidade do público já era grande sobre o tema.
O psiquiatra se manifestou de maneira clara quanto ao assunto e
ainda no prefácio de sua obra escreveu: “Como psicólogo,
não disponho de recursos que contribuam para a solução
do problema sobre a realidade física dos UFOs. Por isso,
incumbo-me somente de seus aspectos psíquicos, que sem dúvida
existem, dedicando-me a seguir quase que exclusivamente os fenômenos
psíquicos concomitantes”.
Fundador da escola analítica de psicologia, introduziu termos
como extroversão, introversão e inconsciente coletivo,
ampliando as visões psicanalíticas de Freud e interpretando
distúrbios mentais e emocionais como uma tentativa do indivíduo
de buscar a perfeição pessoal e espiritual. Suas obras
completas constam de 20 volumes, que em português foram publicados
pela Editora Vozes – embora alguns ainda não tenham
sido traduzidos. Além deles, existem volumes complementares
e correspondentes a seminários proferidos por Jung, infelizmente
ainda sem versão em português.
Jung acompanhava de perto o trabalho pioneiro que Freud fazia à
época, como ardoroso seguidor de seus conceitos, que depois
viria reformular. Em 1905, tornou-se professor de psiquiatria da
Universidade de Zurique, na mesma época em que ocupava o
cargo de médico em uma clínica local. Jung iniciou
sua pesquisa na área visando o estudo das reações
da psique de pacientes mentais. Rapidamente, seus estudos lhe conferiram
reconhecimento mundial. Publicou inúmeros trabalhos que foram
traduzidos para vários idiomas, e em um de seus primeiros
livros, A Psicologia da Demência Precoce, apoiou
algumas das teorias de Freud. Com ele Jung mantinha uma amizade
profissional e pessoal que durou cerca de seis anos. Freud via no
jovem psiquiatra seu sucessor, a pessoa que daria continuidade às
suas idéias, tendo inclusive chamado-o de filho numa carta.
Em 1912, por insistência de Freud, Jung tornou-se presidente
da Sociedade Psicanalítica Internacional. Mas, apesar da
amizade, o psiquiatra não adotou várias das teorias
de seu patrono, especialmente a de que os problemas sexuais são
a base para todas as neuroses, ou a visão de Freud do complexo
de Édipo. Jung tinha sua própria linha de pensamento,
tanto que, em 1914, devido a divergências de opiniões,
a amizade entre os dois foi quebrada. Jung desistiu da presidência
da Sociedade e fundou um movimento chamado Psicologia Analítica.
Durante as décadas seguintes, desenvolveu suas teorias baseando-se
na mitologia, história, em viagens que empreendeu e em suas
próprias fantasias e sonhos de infância. Em longas
jornadas ao Quênia, Tunísia, Deserto do Saara, Novo
México e Índia, Jung estudou diferentes culturas e
seus povos. Nestas viagens, formulou sua teoria do inconsciente
coletivo, desenvolvendo uma distinção entre este e
o inconsciente pessoal. Foi em meio a essa imensa atividade que
se interessou e passou a acompanhar a questão dos UFOs.
Boatos visionários
No primeiro capítulo de Um Mito Moderno sobre Coisas
Vistas no Céu, Jung destaca o fato de que o Fenômeno
UFO ainda era encarado como boato pela população e
autoridades, mas que deveria ser visto com mais seriedade. Ele dá
alguns exemplos de fatos marcantes na história humana, relacionados
aos UFOs. “Chamo estes casos, relativamente raros, de
boatos visionários. Eles se parecem muito com visões
coletivas, como a dos cruzados no cerco a Jerusalém, a dos
lutadores de Mons na Primeira Guerra Mundial, a das multidões
de fiéis que acorreram a Fátima no início do
século, e a das tropas de fronteira da Suíça
na Segunda Guerra Mundial”. Sobre essas ocorrências,
Jung usa um provérbio alemão – “Pela
boca de duas testemunhas revela-se toda a verdade” –
para explicar a natureza dos casos. Para ele, tais fatos podem ser
estatisticamente verdadeiros. Mas em certas situações
podem não corresponder à realidade e criam uma incerteza
em todos nós.
A chamada Era Moderna da Ufologia estava apenas começando
quando nasceu seu interesse pelo tema. “Talvez esses casos
ocorram com maior freqüência do que estou disposto a
admitir, já que geralmente a gente não verifica as
coisas que vê com os próprios olhos”. Tal
colocação tem ênfase na expressão “com
os próprios olhos”, típica de Jung e que atribui
ao fenômeno a condição inerente de aceitabilidade
comum aos seres humanos, que é o fato de “ver para
crer”. Segundo o psiquiatra, para o ser humano basta ver algo
para acreditar que exista. Baseado nisso, conforme sua interpretação,
poderíamos estar vivendo uma alucinação, constante
ou não, sem afetar a normalidade de nossa vida no dia-a-dia.
Talvez daí venha o título de seu livro, referindo-se
aos UFOs como uma espécie de mito moderno.
A tradução de sua obra se refere aos casos de avistamentos
de UFOs sempre usando o termo “boatos”. Isso não
tem uma conotação pejorativa, como podem entender
os leitores. É apenas uma adaptação da maneira
como o psiquiatra escrevia seus trabalhos com os termos à
disposição no vocabulário brasileiro, à
época. Assim é que Jung informa, em sua obra, que
“...os boatos dão conta de que os UFOs são
geralmente lenticulares, oblongos ou em forma de charuto, com iluminação
em cores variadas ou brilho metálico. Que seus movimentos
têm um alcance desde a parada total até a velocidade
de 15.000 km/h, e que, em certos casos, tal aceleração
seria fatal ao ser humano, se estivesse dirigindo o aparelho. A
trajetória dos UFOs descreve ângulos que só
seriam possíveis a um objeto isento de força gravitacional”.
Como se vê, o psiquiatra se mostra bem informado sobre as
manobras das naves que já eram vistas no céu.
Predileção pelos eua
Jung já tinha conhecimento de que os UFOs se apresentavam
de várias formas e com muitos tamanhos, pois acompanhava
o registro de aparições em todo o mundo. E acrescentava
que “eles tinham uma preferência especial para sobrevoar
os Estados Unidos”. Outro boato que confirmou em sua
obra diz respeito às naves-mãe. Jung afirmou que era
delas que saíam os pequenos UFOs ou era nelas que buscavam
proteção. “Os boatos dizem também
que os tripulantes dessas naves têm tamanho aproximado de
um metro de altura e são parecidos com o ser humano. Ou ao
contrário, totalmente diferentes dele”. Pode parecer
incrível, mas é verdade que um cientista comportamental
do porte de Jung tratava de ufonautas já na década
de 50.
Sobre a natureza dos boatos visionários representados pelos
UFOs, Jung acreditava que poderiam estar sendo causados por circunstâncias
externas, mas que sua existência se baseava essencialmente
num fundamento emocional presente em todo lugar. Poderia ser uma
situação psicológica geral, uma tensão
emocional com origem numa situação de calamidade coletiva,
uma necessidade psíquica vital etc. Ele explicava, então,
o momento histórico no qual estava inserido o Fenômeno
UFO, alertando para o fato de que contribuíam para o surgimento
dos boatos “a pressão da política russa
e suas conseqüências ainda incalculáveis, que
assolam o mundo inteiro”.
O psiquiatra era um forte defensor da interpretação
dos sonhos e julgava que os componentes de um boato, segundo sua
definição, estariam sujeitos aos mesmos princípios.
E assim começou sua tentativa de explicar o significado dos
UFOs justamente interpretando seu formato. Sendo um disco ou uma
esfera, tal objeto seria uma mandala, o símbolo da totalidade.
“A mandala descreve a totalidade psíquica protegendo
de dentro para fora e procurando unir opostos internos. Paralelamente,
é declarada símbolo de individualização”,
diz Jung em sua obra. “Em nossa esfera cultural, é
como imagem de Deus: um círculo cujo centro está em
todo lugar e cuja circunferência, porém, não
está em lugar algum. Deus e sua omniscientia, omnipotentia
e omnipraesentia, é o símbolo da totalidade por excelência,
um redondo completo e absoluto”.
Símbolos do ser humano
Jung se aprofundou em suas considerações, combinando
e confrontando a idéia dos boatos ufológicos aos símbolos
do ser humano. Em dados momentos, fez reflexões mais materiais
sobre a questão, quando, por exemplo, examinou a natureza
do Fenômeno UFO e revelou o constrangimento com que teve ao
voltar atrás em sua certeza de que um objeto mais pesado
que o ar não poderia voar. “Esta minha convicção
seria corrigida de forma bastante vergonhosa. Se por um lado a aparente
natureza física dos UFOs também deixa questionamentos
nas melhores cabeças, por outro forma-se a seu respeito uma
lenda tão impressionante que a pessoa se sente tentada a
avaliá-la como um produto psíquico, e a subordiná-la
da mesma forma que uma interpretação psicológica
tradicional".
Jung dedicou um capítulo para tratar dos relatos clínicos
de pessoas que sonharam com UFOs. Nesse instante, temporariamente,
deixou de lado o aspecto físico das aparições
e teceu uma série de ponderações em seus comentários
sobre os objetos que foram sonhados por seus pacientes ou os de
seus colegas. “O arquétipo possui, ao mesmo tempo,
além do seu modo formal de aparecimento, também uma
qualidade numinosa, um valor sentimental que tem um efeito altamente
prático”, escreveu o estudioso, referindo-se ao
que o teólogo e filósofo alemão Rudolf Otto
descreveu como “um sentimento único vivido na experiência
religiosa”. Numinosa é uma experiência de
conteúdo sagrado, em que se confundem fascinação,
terror e aniquilamento. Para Jung, os UFOs tinham algo dessa característica.
“É claro que se pode estar inconsciente deste valor,
reprimindo-o artificialmente. Mas uma repressão tem conseqüências
neurotizantes, de modo que o afeto, que apesar de tudo continua
existindo, simplesmente força sua saída por outro
caminho, por um lugar impróprio, como estamos cansados de
saber”, descreveu.
Para Jung, assim como a fome física seria saciada ao se ver
uma maravilhosa refeição, pelo menos figurativamente,
também a fome da alma seria satisfeita ao se olhar quadros
numinosos. Nesse ponto de suas considerações em Um
Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu, Jung falou então
sobre sua incompreensão de como uma alma pudesse “passar
fome” com tantas religiões à disposição.
“O que evidentemente ainda nos falta é o verdadeiro
acontecimento, a experiência imediata da realidade espiritual,
não importando a forma como se apresente”. Mais
à frente, na obra, fez uma afirmação contundente:
“Com exceção da preocupação
religiosa, nada desafia o homem moderno de forma mais consciente
e pessoal do que a sexualidade”. O autor usou essa conclusão
para atribuir uma inusitada conotação sexual aos UFOs:
“O aspecto sexual do Fenômeno UFO merece nossa atenção,
pois indica que um instinto tão poderoso como o da sexualidade
participa da estrutura de sua manifestação”.
Para o psiquiatra, não seria por acaso que em sonhos apareceriam
símbolos femininos e masculinos, de acordo com os relatos
de avistamentos de UFOs, respectivamente representados em descrições
de naves em forma de lente e de charuto. “Onde aparece
um, é de se esperar que apareça o outro que lhe corresponde”.
Aliens através dos tempos
E concluiu seu raciocínio a respeito do Fenômeno UFO
em sonhos informando que a mensagem que tais objetos trariam aos
que com eles sonham é um problema de época, individual.
“Os sinais no céu aparecem para que cada um veja. Eles
advertem a cada um, individualmente, sobre sua alma e totalidade,
porque esta deveria ser a resposta que o Ocidente precisa dar ao
perigo de massificação”, encerrou o tópico,
um tanto enigmático.
Jung também se dedicou a analisar três quadros artísticos
onde o Fenômeno UFO aparece graficamente registrado. “Desde
o começo dos tempos, os relatos sobre UFOs me interessaram
como um possível boato simbólico. Mas foi desde 1947
que passei a colecionar todas as publicações que me
foi possível adquirir, pois nelas as formas dos UFOs pareciam
coincidir de maneira impressionante com o símbolo da mandala”.
Sobre isso, Jung publicou, em conjunto com Richard Wilhelm, em 1927,
o livro O Segredo da Flor de Ouro [Editora Vozes, 1984]. A materialidade
dos UFOs passou a ser a preocupação do psiquiatra,
tanto que firmava que “às testemunhas oculares
e aos peritos em radar deve-se conceder, com prazer, o benefício
da dúvida”. Mas advertiu que deveríamos
estar sempre alerta para o fato de que existe uma semelhança
entre as aparições de UFOs e certas condições
psicológicas e psíquicas, que não devem ser
ignoradas no julgamento e na avaliação das observações.
Jung não pretendeu em sua obra solucionar o Fenômeno
UFO. Até porque, ele mesmo se deu o direito da dúvida
quando não conseguiu explicação plausível
para os bips em radares aeronáuticos causados pelas aparições
dos objetos. Mas ao analisar a manifestação dos UFOs
através da história, principalmente com o estudo das
pinturas a que teve acesso, deixou claro, mais uma vez, a materialidade
dos objetos. O estudioso tinha conhecimento de que a fenomenologia
ufológica, embora tenha se intensificado e ganhado maior
publicidade ao final da Segunda Guerra Mundial, com os foofighters,
tinha uma origem muito mais remota. “Já na Antigüidade
tais fatos foram observados e registrados. Na literatura sobre o
assunto, há compilações dos mais variados relatórios
do gênero, que precisam de uma abordagem crítica”.
Ele se referiu especialmente à representação
gráfica de fatos inusitados que ocorreram sobre cidades européias,
no século 16. Para Jung, tais acontecimentos eram típicas
ocorrências ufológicas, que estão claramente
descritas no Folheto de Basiléia, de 1566, e no Folheto de
Nuremberg, de 1561. O primeiro documento relata que, no dia 07 de
agosto daquele ano, muitas bolas grandes e pretas foram vistas durante
o nascer do Sol sobre aquela cidade. Segundo registros históricos
reproduzidos por Jung, “tinham muita velocidade e voltaram-se
umas contras as outras, como se lutassem entre si. Várias
delas ficaram vermelhas e incandescentes, e depois foram devoradas
pelas chamas e se apagaram”. Para o psiquiatra, a cor
escura daqueles UFOs resultaria, certamente, do fato de terem sido
vistos contra a luz do Sol nascente. “Mas outros, entretanto,
eram claros e até incandescentes”, complementou,
novamente numa alusão à natureza física do
fenômeno, sobre a qual Jung não entra em maiores análises.
Visão ou aviso divino
O Folheto de Nuremberg, de 14 de abril de 1561, também
descreve um fato semelhante, que segue narrado por Jung: “A
notícia de uma visão muito apavorante, também
na aurora daquele 14 de abril, foi registrada por muitos homens
e mulheres. Eram bolas de cores vermelhas como sangue, azuladas
e pretas, e também discos em grande número, todos
perto do Sol”. Tal relato em muito se assemelha ao da
Basiléia, pois as bolas pareciam guerrear entre si e depois
caíam ao solo, desaparecendo em grandes nuvens de vapor.
Jung também relatou em sua obra um objeto de formato longitudinal,
registrado durante a aparição e “igual a
uma grande lança preta”. Ambos os fatos foram
considerados, na época, uma visão ou um aviso divino.
Adentrando ainda mais no universo histórico do Fenômeno
UFO, Jung chegou a fazer um levantamento de suas próprias
análises e colocou em questão os fenômenos parapsicológicos
analisados por Rhine, estudioso que é considerado o fundador
da parapsicologia moderna. Jung interpretou as manifestações
parapsicológicas a que teve acesso e as agrupou num conceito
que chamou de sincronicidade. “O resultado positivo dessas
experiências eleva os fenômenos parapsicológicos
ao nível dos fatos incontestáveis”. Ou
seja, o psiquiatra não somente se envolveu de maneira significativa
com a Ufologia, como ingressou no mundo da parapsicologia. Isso
numa época em que a ligação entre as duas disciplinas
– especialmente na forma de manifestações parapsicológicas
que surgem em testemunhas, após seus contatos com UFOs –
era pouco ou quase nada discutida.
Jung, assim, com suas considerações que mesclavam
o universo parapsicológico com o ufológico, nos colocou
frente-a-frente com um mundo novo e mágico, onde as forças
físicas perdiam lugar para outras até então
desconhecidas, que tinham sua origem na própria psique humana.
Mas não pararam aí suas análises da manifestação
alienígena na Terra. Em dado momento de sua obra, Jung fugiu
do aspecto puramente psicológico da questão e se permitiu
analisar casos de UFOs amplamente documentados e relatados por pessoas
de alta credibilidade, sem conotação psicológica.
“Para isso, baseio-me nos relatos sintetizados por [Edward
J.] Ruppelt e [Donald E.] Keyhoe, que merecem credibilidade, como
também no fato de que o astrofísico professor [Donald
H.] Menzel não conseguiu, mesmo com a maior boa vontade,
explicar um único relato autêntico de forma satisfatória,
por meios racionais”, declarou, referindo-se a estudiosos
que se dedicaram ao Fenômeno UFO na mesma época em
que ele.
Pioneiros da Ufologia
Ruppelt e Keyhoe são ufólogos contemporâneos
de Jung, pioneiros que também publicaram livros sobre o tema
e pertenciam aos quadros da Força Aérea Norte-Americana
(USAF). Ruppelt, inclusive, dirigiu o Projeto Livro Azul, uma ação
militar de investigação ufológica que depois
foi usada pelo governo numa manobra de desinformação
do assunto. E Keyhoe era o piloto da Marinha dos EUA e encabeçou
uma organização que investigou por muitos anos o fenômeno
ufológico, o National Investigations Committee on Aerial
Phenomena (NICAP). Jung enfatizou em sua obra que Keyhoe obteve
o respeito dos militares norte-americanos especialmente após
ter publicado seu livro A Conspiração dos Discos Voadores
[Henry Holt, 1955].
Já sobre Menzel Jung não nutria grande estima. Menzel
foi um dos primeiros céticos profissionais do governo norte-americano,
encarregado de desacreditar publicamente os UFOs, o que era visto
pelo psiquiatra como uma política extremamente equivocada.
Menzel foi o diretor do Observatório da Universidade de Harvard
e era envolvido com a Agência de Segurança Nacional
(NSA). Autor de vários livros, aperfeiçoou-se na estratégia
de negar que o assunto UFO merecesse credibilidade. Não há
registro oficial de manifestações de Jung contra esse
personagem, mas uma confidente sua, na época, recorda-se
de tê-lo visto muitas vezes lamentando a decisão do
governo dos EUA de dissimular o que sabia sobre UFOs, em vez de
atacar o problema de frente e apresentá-lo à população.
Apesar dos esforços de Jung, as dúvidas sobre a natureza
do Fenômeno UFO ainda persistiam em sua mente, fazendo-o questionar
a si mesmo o tempo todo. “Se estas coisas são reais
– e, segundo a avaliação humana, não
parece haver quase nenhuma dúvida disso – então
só nos resta escolher entre as hipóteses da ausência
de força de gravidade, de um lado, e da natureza psíquica
do fenômeno, do outro. Sobre esta questão, não
posso decidir”. Fosse qual fosse a teoria certa, para
ele, ela não ajudava muito a explicar a natureza física
do fenômeno. “Se até os militares sentem
a necessidade de montar escritórios para supervisão
de observações do gênero, então a psicologia,
por sua vez, não só tem o direito mas também
o dever de fazer a sua parte no esclarecimento da obscura situação”.
Em sua época, com o que dispunha, Jung tratou o tema ufológico
sob o ponto de vista psicológico, de um homem que estabeleceu
o conceito do inconsciente coletivo. Suas formulações
só perderam um pouco o sentido lógico quando entraram
na análise dos sonhos, onde Jung julgava que o fenômeno
se manifestava. Ora, se por um lado podemos associar os UFOs a uma
alucinação coletiva induzida pela psique humana, não
deveria ser palpável que o mesmo pudesse ser interpretado
através da simbologia de análise dos sonhos, que são
individuais. Nesta dualidade é que se encontra a chave para
a análise psicológica da questão: o uno. Somos
criaturas isoladas em nossas mentes ou não? Para Jung, os
sonhos de várias pessoas podem seguir uma linha cronológica
e, quando analisados, estar conectados de alguma forma – como
se o objeto sonhado por uma pessoa desse continuidade ao sonhado
por outra.
Para concluir este trabalho será necessária uma forte
reflexão na afirmativa de Jung quanto à natureza das
coisas. Os UFOs seriam objetos materiais formados pela força
metafísica que rodeia o imaginário coletivo ou naves
vindas do espaço exterior? Essa pergunta, por enquanto, fica
sem a resposta. Mas isso não é o mais importante,
porque a verdade está dentro e não fora do ser humano.
Para quem acredita em UFOs, uma razão não será
necessária. Para aquele que não crê, duas não
serão suficientes. De qualquer forma, o Fenômeno UFO
é incontestável, seja ele fruto da manifestação
inconsciente das massas ou reais naves alienígenas, esteja
ele conosco desde o começo da humanidade ou surgindo com
a queda do World Trade Center, em Nova York. Nosso papel é
analisar o que isso representa para o indivíduo e em suas
representações mentais, seu íntimo psicológico.
Terceira possibilidade
“Parece-me que, mesmo com todas as restrições
necessárias, há uma terceira possibilidade para os
UFOs: eles seriam fenômenos reais, materiais, naves de natureza
desconhecida que provavelmente vêm do espaço cósmico.
Talvez, já há muito tempo os habitantes da Terra os
tivessem visto, mesmo que eles não apresentassem ter qualquer
relação perceptível com o planeta e seus habitantes”.
“Existem mais coisas entre o céu
e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”
- William Shakespeare
“Como psicólogo, não disponho
de recursos que contribuam para a solução do
problema dos UFOs. Incumbo-me somente de seus aspectos psíquicos,
que sem dúvida existem, dedicando-me a seguir quase
que exclusivamente os fenômenos psíquicos concomitantes”
“Os casos de UFOs se parecem muito com
visões coletivas, como
a dos cruzados no cerco a Jerusalém, a dos lutadores
de Mons na Primeira Guerra Mundial, a das multidões
de fiéis que acorreram a Fátima no início
do século, e a das tropas de fronteira da Suíça
na Segunda Guerra Mundial”
“Os UFOs são geralmente lenticulares,
oblongos ou em forma de charuto, com iluminação
em cores variadas ou brilho metálico. Que seus movimentos
têm um alcance desde a parada total até a velocidade
de 15.000 km/h, e que, em certos casos, tal aceleração
seria fatal ao ser humano, se estivesse dirigindo o aparelho”
“Os sinais no céu aparecem para
que cada um os veja. Eles nos advertem, individualmente, sobre
sua alma e totalidade, porque estas deveriam ser a resposta
que o Ocidente precisa dar ao perigo da massificação
(...) Já na Antigüidade tais fatos foram observados
e registrados. Na literatura sobre o assunto há compilações
dos mais variados relatórios do gênero, que precisam
de uma abordagem crítica”
“Parece-me que,mesmo com todas as restrições
necessárias, há uma terceira possibilidade para
os UFOs: eles seriam fenômenos reais, materiais, naves
de natureza desconhecida que muito provavelmente vêm
do espaço cósmico. Talvez, já há
muito tempo os habitantes da Terra os tivessem visto, mesmo
que eles não apresentem ter qualquer relação
com o planeta e seus habitantes”
“Se até os militares montam seus
escritórios para supervisão de observações
do gênero, então a psicologia, por sua vez, não
só tem o direito mas também o dever de fazer
a sua parte no esclarecimento dessa obscura situação”
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JOÃO OLIVEIRA é publicitário,
comunicólogo e estudante de Psicologia. Ele mantém
uma coluna semanal no jornal O Diário do Norte Fluminense
[www.odiarionf.com.br]
e é consultor da REVISTA UFO. Seu endereço é:
Caixa Postal 114334, 28001-070 Campos dos Goitacazes (RJ). E-mail:
joao.oliveira@ufo.com.br.
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