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Morte na Ilha
do Caranguejo
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Natalino Filho, diretor da
estação meteorológica, disse que um raio poderia
ter caído na água e passado por ela até o barco,
já que a água é um bom condutor de eletricidade. “Mas
se isso tivesse acontecido, Apolinário teria morrido porque
ele estava deitado no chão, no ponto mais próximo da água” ,
acrescentou Natalino. Decididamente não havia queimaduras
no barco. Eu o inspecionei pessoalmente, e foi uma aventura infernal.
Firmino morava na floresta, a uma certa distância ao sul de
Itaúna, o terminal de balsa entre a Baía de São
Marcos e São Luis. Com Ana Teresa Britto e sua irmã Leila
como intérpretes, fui procurar Firmino para levá-lo
a São Luis. Quando chegamos a casa dele, ficamos sabendo que
o Maria Rosa, o barco usado pelos quatro homens na viagem à Ilha
do Caranguejo, estava ancorado num riacho próximo. Fazia dias
que o vinha procurando, mas longe dali, na área de São
Luis.
Pântano infernal
Teríamos de esperar até que Firmino se
aprontasse para ir conosco a São Luis, por isso, Ana Teresa, Leila e eu
fomos inspecionar o barco, com a mulher de Firmino, Maria, nos servindo de guia.
Fomos de carro a um pequeno vilarejo, estacionamos e começamos a descer
a pé por uma trilha que dava na floresta. Cinco minutos mais tarde, chegamos
a um pântano onde a trilha desaparecia debaixo d'água por uns 68
m. Maria disse que não havia outra maneira de alcançar o barco.
Imagens de piranhas e outras criaturas belicosas me
vinham à mente, deixando-me com dor de cabeça enquanto eu observava
a água escura. Não dava para ver nada sob a superfície negra,
e teríamos de atravessá-la descalços ou arriscar perder
os sapatos no barro. Eu queria chorar. Maria me garantiu que a água só chegava
aos joelhos, mas eu não queria entrar nela descalço nem com sapatos,
por mais rasa que fosse. Mas não tinha escolha, se quisesse examinar o
barco. As três mulheres riram de mim, quando eu hesitei. E então,
detestando cada minuto da aventura, mergulhei as pernas no pântano e arrestei-me
através dele, seguindo Maria e seguido por Ana Teresa e Leila. Mas nada
de ruim aconteceu, e chegamos ao outro lado com os artelhos intactos.
Alguns minutos depois, chegamos ao barco. Com a maré baixa,
ele ainda estava preso na lama. Era totalmente feito de madeira e tinha uma única
e enorme vela. Era um barco velho, com a pintura tão desbotada que mal
podíamos ver o nome Maria Rosa. Não havia ninguém por perto.
Enquanto as três mulheres se sentavam sobre um tronco caído e me
esperavam, atravessei uma prancha de madeira e subi ao tombadilho. A única
entrada para a cabine e o espaço de carga embaixo é através
de uma escotilha quadrada, bem atrás do mastro. Fiquei uns 30 minutos
examinando o barco inteiro, dentro e fora. Não havia um único sinal
de fogo ou violência. Tirei várias fotos, e então nós
quatro voltamos – descalços através do mesmo pântano (3).
Levamos Firmino a São Luis porque eu tinha providenciado
a vinda do doutor Sílvio Lago de Niterói, para hipnotizar os três
homens. O doutor Lago, médico e professor de medicina, já vinha
usando hipnose em sua profissão havia quase 45 anos. Os três homens
concordaram em fazer as sessões porque viviam deprimidos desde o incidente
e esperavam que ele pudesse ajudá-los. O doutor Lago passou 16 horas com
os homens, seis falando com cada um individualmente e juntos sobre suas vidas
e o que aconteceu na Ilha do Caranguejo, e as outras 10 horas em sessões
individuais de hipnose. Quando acabou, ele estava convencido de que os homens
estavam dizendo a verdade, mas não obteve a menor pista do que tinha acontecido
aquela noite. “Eles não conseguiam se lembrar de nada após terem
ido dormir aquela noite. Não estou acostumado a ver esse tipo de bloqueio
mental. É um caso muito estranho e complicado” , disse o doutor Lago.
Só a emoção não seria suficiente
para causar o bloqueio, disse. “Foi alguma coisa física e psíquica,
mas nada comum. Uma emoção muito forte poderia causar amnésia,
mas não parece ter sido a reação emocional dos homens que
provocou esse bloqueio mental. É possível que antes ou durante
a experiência, eles tenham passado por algum tipo de hipnose muito profunda,
preparando-os para não se lembrar de nada, depois” . Outra coisa que o
intrigou foi que Apolinário, que não tinha ferimentos aparentes,
tinha o mesmo tipo de bloqueio que os outros dois.
“Uma hipótese é que Apolinário
deve ter tido uma emoção forte demais a ponto de provocar o bloqueio.
Não imagino o que seja, a menos que ele tenha visto o que aconteceu. O
que lhe impôs o bloqueio mental foi muito mais forte que a dor de ver seu
irmão morto, porque ele se lembra de tudo antes e depois, mas nada durante,
e eu não acredito que haja emoção maior que ver o irmão
morto e dois homens feridos. É muito estranho” , informou o hipnólogo.
Outra parte do mistério é o fato de que Auleriano foi dormir nos
fundos do barco e acordou na frente, enquanto Firmino, que estava dormindo na
frente, foi encontrado nos fundos, perto da rede de Auleriano. Nenhum dos homens
se lembrava de ter trocado de posição no meio da noite.
Algumas pessoas familiarizadas com o caso acham que
um UFO tirou os homens do barco, fez o que quis com eles, e os colocou de volta,
errando os locais onde estavam Firmino e Auleriano, invertendo suas posições.
O que aconteceu aquela noite a bordo do Maria Rosa foi entre as 20h00, quando
eles foram dormir, e a meia-noite, quando pretendiam acordar. Três deles
estavam acostumados a acordar com o fluxo da maré, mas ninguém
acordou até a manhã seguinte. Isso indica que todos estavam inconscientes
antes da meia-noite. O que ou quem causou as queimaduras em Firmino e Auleriano
provavelmente também foi responsável pela morte de José.
Exatamente quando esses eventos ocorreram não se pode determinar, mas
provavelmente foi antes da meia-noite. O corpo de José estava ficando
duro e Apolinário teve dificuldade para colocar a perna do irmão
de volta na rede. Isso foi entre 5 e 5h30. Normalmente, a rigidez começa
três ou 4 horas após a morte e leva cerca de 12 horas para se espalhar
pelo corpo inteiro.
Problemas de saúde
Quando entrevistei os três sobreviventes,
esperava que o bloqueio mental tivesse esvaecido e que talvez suas
memórias começassem a ser reativadas. Mas talvez isso
nunca aconteça. Voltei em 1981 e conversei com Auleriano e
Apolinário, e novamente em 1992, quando falei com os três.
Nenhum deles se lembrava de coisa alguma. Um fato interessante é que
os dois que sofreram queimaduras, Firmino e Auleriano, hoje têm ótima
saúde, mas Apolinário, que aparentemente não
sofreu ferimentos, tem problemas de saúde atualmente. Um ano
e meio depois do incidente, ele começou a sentir uma fraqueza
no braço esquerdo. Em 1981, o ano em que ele completou 36
anos, não podia segurar nada com a mão esquerda sem
derrubar. Em 1992, com 46 anos de idade, ele tinha pouca força
na mão e no braço esquerdos, sofria de fortes dores
de cabeça e caminhava com dificuldade, com o passo um pouco
duro. Ele não sabe por quê. Nunca teve acidentes nem
doenças debilitantes. Quando consegue trabalhar, faz carvão.
Firmino, que perdera peso e quase não conseguia
fazer nada por vários anos depois do incidente – e às vezes até parecia
meio abobado, segundo sua mulher – hoje está robusto e mentalmente ágil,
de novo. Consegue fazer trabalhos braçais leves, apesar de ter a mão
esquerda torta. Ele e Maria também são os proprietários
e administradores de uma pequena mercearia em um dos bairros mais pobres de São
Luis.
As cicatrizes de Auleriano praticamente desapareceram.
Dois anos depois do incidente, ele começou a ir à Ilha do Caranguejo
para pegar madeira de novo, e continuou com esse trabalho até 1991, sem
mais nenhum acontecimento inusitado. Mas largou essa ocupação e
foi trabalhar como guarda de segurança em uma empresa de construção.
Nem Apolinário nem Firmino jamais voltaram à Ilha do Caranguejo.
Outra morte na Ilha do Caranguejo
Esse não é o fim da história
da Ilha do Caranguejo. Praticamente a mesma coisa aconteceu nove
anos depois com outro grupo de homens, deixando um morto, um queimado
e dois misteriosamente afetados. Em 28 de abril de 1986, os quatro
homens foram à ilha num barco semelhante, para pegar madeira.
Trabalharam dois dias cortando mais de 300 troncos e empilhando-os
nas margens do rio, perto do barco. No dia 30 de abril, pararam de
trabalhar às 18h00 e um deles, Juvêncio, 22 anos, começou
a cozinhar. Veríssimo, 21, disse que não se sentia
bem e pediu a Juvêncio alho para esfregar nos braços,
pois isso o faria se sentir melhor, mas Juvêncio de repente
ficou tonto e caiu no tombadilho, inconsciente. Numa rápida
sucessão, os outros dois homens, Anselmo e Lázaro,
ambos na casa dos 40, também desmaiaram.
Ninguém sabe o que aconteceu com Veríssimo.
Lázaro recobrou a consciência ao meio-dia, no dia seguinte, e encontrou
Veríssimo morto, estendido no tombadilho. Não havia marcas nele,
mas um pouco de sangue escorria-lhe da boca. Anselmo acordou duas horas mais
tarde e Juvêncio voltou a si às 17h00, quase 24 horas depois de
ter desmaiado. O lado direito de sua cabeça estava queimado e inchado.
Anselmo e Lázaro tentaram colocar a madeira no barco, mas desistiram após
terem carregado não mais que uns trinta mastros. Começaram a conduzir
o barco de volta a São Luis, mas era difícil porque os três
sentiam enjôos e náuseas.
Forte estrondo
A segunda morte na Ilha do Caranguejo
também
não foi noticiada fora de São Luis. Fui a São
Luis cinco meses após o incidente e soube da história
por Mônica Carneiro e Ana Teresa Brito, as principais intérpretes
em minha investigação do primeiro caso. Elas me ajudaram
a encontrar Juvêncio, que me contou o que tinha acontecido.
Como no primeiro caso, nenhum dos três sobreviventes sabe o
que aconteceu aquela noite, exceto que todos sentiram tontura e desmaiaram.
As autoridades portuárias os interrogaram e me disseram que
parecia que os homens estavam dizendo a verdade. Os três tinham
certeza que o problema não foi intoxicação alimentar.
Ainda não tinham comido e estavam se sentindo muito bem até ficarem
tontos. As autoridades descartaram a possibilidade de algum tipo
de gás venenoso do pântano. Juvêncio disse que
ninguém sentiu nenhum cheiro estranho antes da tontura.
Não foi feita autópsia em Veríssimo.
Como no primeiro caso, quando o barco chegou ao porto, seu corpo já estava
em avançado estado de decomposição. O atestado de óbito
de Veríssimo simplesmente menciona a causa de morte como "não determinada".
A ligação com um UFO nesse caso também é tênue.
Uma coisa estranha aconteceu pouco antes dos homens desmaiarem. Eles ouviram
um forte estrondo no mato, em algum lugar perto do barco. No escuro, não
puderam ver o que era, e não sabem o que pode ter causado o barulho. Só se
pode chegar à ilha de barco ou helicóptero, e os homens não
sabiam da presença de outras pessoas lá, com eles. Os partidários
das teorias ufológicas podem interpretar o estrondo como uma clara indicação
de que um UFO aterrissou, esmagando árvores em seu caminho, enquanto os
desmistificadores alegarão que o barulho deve ter sido causado por uma árvore
caindo.
Não há como provar quem está certo,
mas os homens reconheceriam o som de uma árvore caindo. Quando Mônica,
Ana Teresa e eu entrevistamos Juvêncio em sua casa, vários vizinhos
se reuniram para ouvir. Um homem no meio da multidão disse que tinha tido
um contado com um UFO em um barco semelhante, não longe da Ilha do Caranguejo,
numa noite em 1983. Seu barco estava ancorado em um riacho do lado oeste da baía,
quando um grande objeto brilhante desceu e pairou sobre ele, projetando uma luz
sobre a embarcação. O homem e seus companheiros saltaram para fora
do barco e se esconderam no mato até o UFO se afastar. Ele disse que várias
pessoas em barcos na área também tiveram contatos com UFOs aquele
ano.
Tanto Lázaro quanto Anselmo estavam no interior
as duas vezes que estive em São Luis depois do incidente, e nunca conversei
com eles. Entretanto, vi Juvêncio novamente em 1992. Ele disse que estava
bem de saúde, mas que Anselmo e Lázaro sentiam amortecimento nas
pernas, e Lázaro às vezes tinha tontura e dor de cabeça.
Os dois casos são notavelmente semelhantes, exceto que nenhum dos homens
do primeiro incidente sentiu tontura. É bem possível que não
tenha havido a presença de UFO em nenhum dos casos, já que as vítimas
não se lembram de ter visto nada estranho e não houve outras testemunhas.
Mas se os vilões nesses casos não são os UFOs, então
algum fenômeno igualmente estranho foi o responsável. De qualquer
forma, tudo faz parte de um estranho mistério que fere e, às vezes,
mata as pessoas.
Notas do texto
(1) Auleriano é uma variação de um nome mais
comum, Aureliano.
(2) Há uma notável semelhança entre as queimaduras
graves e o coma de Firmino e o que aconteceu em um caso pesquisado
por Húlvio Brandt Aleixo, no Vale das Velhas (MG). Na localidade
de Florestal, uma tarde, uma senhora idosa foi encontrada inconsciente
no quintal de sua casa, com uma queimadura em cada braço.
Ela foi levada a um hospital, onde conseguiu se recuperar. A queimadura
era tão grave que ela precisou de enxertos de pele, e levou
três meses para se curar. Ninguém sabe o que causou
a queimadura, e ela não tinha idéia do que tinha acontecido.
Durante alguns dias, antes desse incidente, moradores da vizinhança
tinham visto estranhas bolas de fogo voando pelo céu. Algumas
pessoas achavam que havia uma ligação entre o acidente
com a mulher e as bolas de fogo.
(3) Vários anos depois, Ana Teresa comentou: “Sabe, aquilo
foi perigoso”.
Quem é Bob Pratt?
Bob Pratt é um jornalista
norte-americano aposentado que trabalhou como repórter e editor
de jornais diários e revistas por 48 anos. É ufólogo
desde 1975, quando foi enviado para investigar a aterrissagem de
um UFO na região norte dos Estados Unidos. Até aquela época,
sempre fora cético, mas em uma semana entrevistou mais de
60 homens e mulheres que tinham tido avistamentos ou contatos imediatos,
passando a estudioso do assunto. O testemunho dessas pessoas o convenceu
de que os UFOs são reais. Nos seis anos e meio que se seguiram,
ele se especializou em pesquisa ufológica para sua revista,
a National Enquirer, viajando pelos EUA, Argentina, Bolívia,
Canadá, Chile, Japão, México, Peru e Porto Rico.
Desde 1975, entrevistou cerca de duas mil pessoas que tiveram experiências
ufológicas. Só ao Brasil veio nada menos do que 13
vezes para examinar casos, especialmente no Nordeste.
Pratt ficou profundamente interessado nos casos de contatos
com UFOs no Brasil após a Enquirer tê-lo enviado aqui quatro vezes,
nas décadas de 70 e 80. Diferente do que tinha observado em outros países,
no Brasil os UFOs ferem muitas pessoas e podem até ter matado algumas.
Esses incidentes o intrigaram tanto que, após sair da revista, em 1981,
voltou imediatamente ao país para continuar suas pesquisas por conta própria.
Mais recentemente, em 1999, passou a tentar descobrir por que acontecem tantos
contatos no Brasil, em número bem superior ao registrado noutros países.
Bob Pratt escreveu numerosos artigos sobre UFOs e foi editor do UFO Journal, órgão
oficial da entidade norte-americana Mutual UFO
Network (MUFON) , a maior do mundo. Em seu o site [ www.bobpratt.org ]
há muitas de suas inúmeras histórias. É também
co-autor, junto de Philip Imbrogno, da obra Night Siege: The Hudson Valley UFO
Sightings [Cerco Noturno: Os Avistamentos de UFOs em Hudson Valley] , do doutor
J. Allen Hynek.
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